Belchior – Apenas um rapaz latino americano

O cantor e compositor Belchior morreu na madrugada de domingo (30) em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, aos 70 anos de idade; Compositor de “Apenas Um Rapaz Latino Americano” e “Como Nossos Pais”,  Belchior é considerado expoente da música popular brasileira por suas letras contestatórias, melancólicas e irônicas. Confira a bibliografia completas e as mais importantes canções desse grande artista brasileiro. 

Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes (Sobral, Ceará 1946 – Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul, 2017). Compositor, cantor, desenhista, caricaturista, pintor. Na infância é cantador de feira, poeta repentista e estudante de piano. Seu avô toca flauta e saxofone, sua mãe canta no coro da igreja e lhe ensina as primeiras noções musicais. No Colégio Sobralense, aprende música, línguas, filosofia e canto gregoriano. Vai para o Liceu de Fortaleza aos 16 anos e, como ainda não tem idade para prestar vestibular, estuda filosofia com frades capuchinhos. Trabalha como programador de rádio enquanto conclui os estudos.

De 1965 a 1970, apresenta-se em festivais de música do Nordeste. Ingressa no curso de medicina na Faculdade Federal do Ceará em 1968. Toca em shows amadores, programas de rádio e televisão ao lado de artistas como Raimundo Fagner e Ednardo. Abandona a medicina no quarto ano para dedicar-se exclusivamente à música.

Belchior - Apenas um rapaz latino americano

 

Muda-se em 1971 para o Rio de Janeiro, onde conquista o primeiro lugar no 4º Festival Universitário de MPB, com a canção Na Hora do Almoço, interpretada por Jorge Teles e Jorge Néri, e lança o primeiro disco, pela Copacabana. No ano seguinte, o compositor Sérgio Ricardo escolhe Mucuripe (1972), de Belchior em parceria com Fagner, para fazer parte do Disco de Bolso do Pasquim. Na voz da cantora Elis Regina Mucuripe torna-se conhecida nacionalmente. A música é gravada ainda por Roberto Carlos, em 1975, e depois por Nelson Gonçalves e Osvaldo Montenegro.

Belchior muda-se para São Paulo e realiza trabalhos solos e com outros artistas cearenses. Faz trilhas sonoras para curtas-metragens, shows em praças públicas e algumas apresentações na televisão. Com o LP A Palo Seco (1974), suas músicas alcançam grande sucesso e são gravadas por outros intérpretes. A consagração vem com a balada Apenas um Rapaz Latino-Americano, Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida, do álbum Alucinação (1976). As duas últimas estão no show e disco Falso Brilhante, de Elis Regina. Rompido com a Philips, grava pela Warner em 1977 o álbum Coração Selvagem, do qual se destacam Paralelas, canção que obtém sucesso com Vanusa, e Galos, Noites e Quintais, lançada por Jair Rodrigues.

No disco Paraíso (1982), Belchior abre espaço para compositores como Guilherme Arantes, Ednardo Nunes e Arnaldo Antunes. Apresenta-se na casa de espetáculos Mamute, em 1984, com o show Cenas do Próximo Capítulo, com o qual faz turnê pelo Brasil. Em 1986 lança o disco 10 Anos de Sucessos, recordando as músicas A Palo Seco e Velha Roupa Colorida. Seu 13º LP, Elogio da Loucura (1988), é gravado no Teatro João Caetano.

Em 1999 lança o CD duplo Auto-Retrato, contendo 25 de seus sucessos, entre os quais Medo de Avião (1979) e Fotografia 3 x 4 (1976), com arranjos do multi-instrumentista André Abujamra e do maestro Rogério Duprat. Belchior recebe o título de cidadão da cidade pela Câmara Municipal de Fortaleza,em 2005. Na ocasião há duas exposições na cidade com a retrospectiva de 140 desenhos e pinturas de sua autoria.

Grava dois CDs, traduzindo para o espanhol suas músicas Eldorado (1998), com Eduardo Larbanois e Mario Carrero, e Belchior la Vida Es Sueno (2001).

Apesar de ser muito ligado à poesia, Belchior dedica-se à música. As letras de suas canções, que revelam sólida formação intelectual, trazem fragmentos de poetas e romancistas brasileiros e estrangeiros. Cita, por exemplo, a Divina Comédia, de Dante Alighieri, e Comédia Humana, de Honoré de Balzac (na balada Divina Comédia Humana); Elogio à Loucura, de Erasmo de Roterdã (em Elogio da Loucura); A Palo Seco, de João Cabral de Melo Neto; O Corvo, de Alan Poe; As Flores do Mal, de Baudelaire; A Via Láctea, de Olavo Bilac; Âge d’Or, Jeunesse e Chanson de la Plus Haute Tour, de Rimbaud. O apreço pela poesia se expressa também pela maneira como dispõe a letra nos encartes dos discos, que se assemelham muitas vezes à poesia concreta.

Utiliza ainda temas musicais brasileiros e estrangeiros, como em Apenas um Rapaz Latino-Americano, em que o compositor cita Divino Maravilhoso, de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Outras referências são Happiness I sa Warm Gun (em Comentário a Respeito de John); She’s Leaving Home e Blackbird (dos Beatles); Like a Rolling Stone (Bob Dylan); e Assum Preto (Luís Gonzaga) em Velha Roupa Colorida. Essas citações são feitas tanto de maneira plástica, por meio de encartes, como na própria construção musical, em que insere trechos dos arranjos originais das músicas, como em Medo de Avião (I Want to Hold Your Hand, dos Beatles), e na balada-blues Elegia Obscena (Satisfaction, dos Rolling Stones).

Além do fator estético, essas inserções situam o posicionamento do artista diante da produção musical de seu tempo. Filia-se tanto ao Pessoal do Ceará,1 que agrega artistas que a partir da década de 1970 despontam no cenário musical brasileiro, quanto à MPB mais ampla.  Estabelece um diálogo entre a música tradicional nordestina, a MPB, o rock e o folk, trazendo para suas composições a tensão entre o espaço urbano e o sertão – o que tem a ver com sua própria trajetória pessoal: “Sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco/sem parentes importantes/ e vindo do interior” (trecho de Apenas um Rapaz Latino-Americano). Na mesma canção, ele ironiza os baianos do tropicalismo chamando-os de “velhos”: “Em que um antigo compositor baiano me dizia/ Tudo é divino/ Tudo é maravilhoso”. Suas influências  evidenciam a variedade de referências e seu processo “antropofágico” de criação. Aprecia a Jovem Guarda e compositores como Chico Buarque e Bob Dylan, este é sua maior influência, até mesmo na emissão vocal nasalada.

Para expressar essas ideias, assume um estilo peculiar. Seu canto é rasgado, falado, à moda das lavadeiras e dos penitentes nordestinos. Nas músicas que tratam do espaço urbano seu canto é gritante, com a finalidade de incomodar o ouvinte, elemento incorporado do rock.
Sua inserção na mídia é dificultada pelo fato de investir numa obra poética de caráter crítico. Apenas um Rapaz e Não Leve Flores, do álbum Alucinação, passam algum  tempo retidas na censura, assim como Caso Comum de Trânsito (1977). Por outro lado, realiza shows com frequência e fica conhecido por canções que falam de amor e paz e ao mesmo tempo incitam às lutas sociais. A canção Velha Roupa Colorida, por exemplo, denuncia o cerceamento da liberdade da juventude, às vésperas do Ato Institucional nº 5 (AI-5). Em Máquina II, a palavra “máquina” se repete 20 vezes, um procedimento poético concretista que alude ao processo de industrialização e reificação do homem.

A temática da América Latina é constante em suas músicas, como nas baladas A Palo Seco (1974) e Voz da América (1979). Outra questão é a posição do nordestino ao chegar ao Sudeste, como se nota em Conheço o Meu Lugar (1979) e Fotografia 3 x 4 (1976). É também importante sua crítica à estagnação da arte e da vida brasileira na época em Como Nossos Pais (1976): “Nossos ídolos ainda são os mesmos (…) Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém”.

Compõe uma quantidade considerável de músicas com parceiros como Toquinho – nas canções românticas Pequeno Perfil de um Cidadão Comum e Meu Cordial Brasileiro, ambas do álbum Era uma Vez um Homem e Seu Tempo (1979) -, Gilberto Gil, João Bosco, Jorge Mautner, Moraes Moreira, Fausto Nilo, Jorge Mello, Ednardo, Rodger Rogério. Com Fagner grava o lamento sertanejo Aguapé (1978), parte de seu projeto Soro. No álbum Vício Elegante (1996), interpreta Garoto de Aluguel (Táxi Boy), de Zé Ramalho, Esquadros, de Adriana Calcanhotto, e O Nome da Cidade, de Caetano Veloso.

 

Apenas um rapaz Latino Americano

Belchior
 
Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco

Sem parentes importantes e vindo do interior

Mas trago, de cabeça, uma canção do rádio

Em que um antigo compositor baiano me dizia

Tudo é divino, tudo é maravilhoso (Bis)

Tenho ouvido muitos discos, conversado com pessoas, caminhado meu caminho

Papo, som dentro da noite e não tenho um amigo sequer

E não acredite nisso, não, tudo muda e com toda razão

Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco

Sem parentes importantes e vindo do interior

Mas sei que tudo é proibido aliás, eu queria dizer

Que tudo é permitido até beijar você no escuro do cinema

Quando ninguém nos vê (Bis)

Não me peça que lhe faça uma canção como se deve

Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve

Sons, palavras, são navalhas e eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém

Mas não se preocupe meu amigo com os horrores que eu lhe digo

Isso é somente uma canção, a vida, a vida realmente é diferente

Quer dizer, ao vivo é muito pior

Eu sou apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco

Por favor não saque a arma no “saloon” eu sou apenas um cantor

Mas se depois de cantar você ainda quiser me atirar

Mate-me logo, à tarde, às três, que à noite tenho um compromisso

E não posso faltar por causa de você (Bis)

Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco

Sem parentes importantes e vindo do interior

Mas sei que nada é divino, nada, nada é maravilhoso

Nada, nada é sagrado, nada, nada é misterioso, não

Na na na na na na na na


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Medo de Avião

Belchior

Foi por medo de avião
Que eu segurei pela primeira vez na tua mão
Um gole de conhaque, aquele toque em teu cetim
que coisa adolescente, James Dean

Foi por medo de avião
Que eu segurei pela primeira vez na tua mão
Não fico mais nervoso, você já não grita
E a aeromoca, sexy, fica mais bonita

Foi por medo de avião
Que eu segurei pela primeira vez na tua mão
Agora ficou fácil, todo mundo compreende
Aquele toque Beatle, I wanna hold your hand
Agora ficou fácil, todo mundo compreende
Aquele toque Beatle, I wanna hold your hand

Alucinação

Belchior

Eu não estou interessado em nenhuma teoria,
Em nenhuma fantasia, nem no algo mais
Nem em tinta pro meu rosto ou oba oba, ou melodia
Para acompanhar bocejos, sonhos matinais
Eu não estou interessado em nenhuma teoria,
Nem nessas coisas do oriente, romances astrais
A minha alucinação é suportar o dia-a-dia,
E meu delírio é a experiência com coisas reais
Um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha
Blue jeans e motocicletas, pessoas cinzas normais
Garotas dentro da noite, revólver: cheira cachorro
Os humilhados do parque com os seus jornais
Carneiros, mesa, trabalho, meu corpo que cai do oitavo andar
E a solidão das pessoas dessas capitais
A violência da noite, o movimento do tráfego
Um rapaz delicado e alegre que canta e requebra, é demais
Cravos, espinhas no rosto, Rock, Hot Dog, “play it cool, Baby”
Doze Jovens Coloridos, dois Policiais
Cumprindo o seu (maldito) duro dever e defendendo o seu amor e nossa vida
Cumprindo o seu (maldito) duro dever e defendendo o seu amor e nossa vida
Mas eu não estou interessado em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia, nem no algo mais
Longe o profeta do terror que a laranja mecânica anuncia
Amar e mudar as coisas me interessa mais
Amar e mudar as coisas, amar e mudar as coisas me interessa mais
Um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha
Blue jeans e motocicletas, pessoas cinzas normais
Garotas dentro da noite, revólver: cheira cachorro
Os humilhados do parque com os seus jornais
Carneiros, mesa, trabalho, meu corpo que cai do oitavo andar
E a solidão das pessoas dessas capitais
A violência da noite, o movimento do tráfego
Um rapaz delicado e alegre que canta e requebra, é demais
Cravos, espinhas no rosto, Rock, Hot Dog, “play it cool, Baby”
Doze Jovens Coloridos, dois Policiais
Cumprindo o seu (maldito)duro dever e defendendo o seu amor e nossa vida
Cumprindo o seu (maldito)duro dever e defendendo o seu amor e nossa vida
Mas eu não estou interessado em nenhuma teoria,
Em nenhuma fantasia, nem no algo mais
Longe o profeta do terror que a laranja mecânica anuncia
Amar e mudar as coisas me interessa mais
Amar e mudar as coisas, amar e mudar as coisas me interessa mais

 

Tudo outra vez

Belchior

Há tempo, muito tempo
Que eu estou
Longe de casa
E nessas ilhas
Cheias de distância
O meu blusão de couro
Se estragou
Oh! Oh! Oh!…

 

Ouvi dizer num papo
Da rapaziada
Que aquele amigo
Que embarcou comigo
Cheio de esperança e fé
Já se mandou
Oh! Oh! Oh!…

Sentado à beira do caminho
Prá pedir carona
Tenho falado
À mulher companheira
Quem sabe lá no trópico
A vida esteja a mil…

E um cara
Que transava à noite
No “Danúbio azul”
Me disse que faz sol
Na América do Sul
E nossas irmãs nos esperam
No coração do Brasil…

Minha rede branca
Meu cachorro ligeiro
Sertão, olha o Concorde
Que vem vindo do estrangeiro
O fim do termo “saudade”
Como o charme brasileiro
De alguém sozinho a cismar…

Gente de minha rua
Como eu andei distante
Quando eu desapareci
Ela arranjou um amante
Minha normalista linda
Ainda sou estudante
Da vida que eu quero dar…

Até parece que foi ontem
Minha mocidade
Com diploma de sofrer
De outra Universidade
Minha fala nordestina
Quero esquecer o francês…

E vou viver as coisas novas
Que também são boas
O amor, humor das praças
Cheias de pessoas
Agora eu quero tudo
Tudo outra vez…

Minha rede branca
Meu cachorro ligeiro
Sertão, olha o Concorde
Que vem vindo do estrangeiro
O fim do termo “saudade”
Como o charme brasileiro
De alguém sozinho a cismar…

Gente de minha rua
Como eu andei distante
Quando eu desapareci
Ela arranjou um amante
Minha normalista linda
Ainda sou estudante
Da vida que eu quero dar
Hum! Huuum

Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural

 

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