Adolescentes enfrentam falta de políticas consistentes sobre saúde mental

De VivaBem, em São Paulo

A adolescência é um período de extrema vulnerabilidade e mudanças, o que impacta a saúde mental dos jovens. Ao mesmo tempo, é também muito propícia para a prevenção, uma vez que certos traços da identidade e personalidade ainda não estão cristalizados.

De acordo com o levantamento “Caminhos da Saúde Mental”, feito pelo Instituto Cactus, muitas vezes essa fase é mal compreendida, o que contribui para a criação de estigmas e para o negligenciamento dos cuidados assistenciais psicológicos.

“É muito importante falar sobre prevenção e intervenções precoces e ter esse olhar para os jovens, já que 50% das condições da saúde mental se manifestam até os 14 anos, e 75% até os 24 anos, sendo que a maior parte disso passa sem diagnóstico ou tratamento”, aponta Luciana Barrancos, gerente geral do Instituto Cactus.

Assista na íntegra ao programa CNN Tonight desta segunda-feira, 21 de junho de 2021. O tema escolhido foi: Saúde mental de crianças e adolescentes na pandemia. O talk show é apresentado por Mari Palma, Gabriela Prioli e Leandro Karnal.

No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, em 2013 havia uma taxa 10,8% e 12,7% de transtornos de saúde mental entre as crianças e adolescentes [de 0 a 19 anos]. Entre os problemas mais comuns estão: ansiedade (de 5,2% a 6,2%), problemas de comportamento ou conduta (de 4,4% a 7%), hiperatividade (de 1,5% a 2,7%) e depressão (de 1% a 1,6%) —que pode parecer pouco— mas representa cerca de 530 mil crianças e adolescentes.

De acordo com o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), os agravos sofridos pelos adolescentes podem comprometer também a qualidade de vida, tendo em vista que é comum que os jovens não tenham ferramentas para lidar com essas frustrações e recorram a outras práticas para mitigar o sofrimento, como abuso de substâncias psicoativas, automutilação e até mesmo o suicídio.

E, infelizmente dados do Ministério da Saúde publicados em 2019 confirmam a preocupação: jovens de 15 a 29 anos de idade concentraram 45,5% das ocorrências de autoagressões, automutilações e tentativas de suicídio de 2011 a 2018. O número passou de 14.490 para 95.061, uma escalada que assusta.

Os especialistas são unânimes em dizer que os dados oficiais estão aquém da realidade. E a pandemia parece ter piorado essa questão.

Sobram problemas, mas falta apoio

Nas escolas, a inclusão de novos elementos curriculares para desenvolvimento de habilidades socioemocionais requer que os próprios professores e as instituições recebam formação adequada para esse fim. Mas até 2019, 37,8% dos docentes dos anos finais do ensino fundamental não possuíam titulação em grau superior compatível com as disciplinas que lecionavam.

“Escolas incapazes de escutar o sofrimento de sua comunidade, quando este dá mostras e sinais, e que não desenvolvem políticas de saúde mental abordando fatores estruturais de indução de sintomas como violência, segregação e bullying, ficarão para trás no futuro que se aproxima”, afirma Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo) e membro do Conselho Consultivo do Instituto Cactus.

Ao mesmo tempo, algumas das iniciativas que abordam essas brechas não se conectam às políticas públicas de forma clara, como o ensino das artes e esportes. Mais do que um passatempo, elas devem oferecer um espaço para o desenvolvimento sócio-emocional, estimulando a construção de disciplina, inteligência e cooperação. Porém, falta mais articulação entre essas ações, o que limita a efetividade e o alcance dessas boas práticas.

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